
Domingos Zamagna
No último dia 13, na cidade de Belo Horizonte, faleceu frei Romeu Dale, OP. No próximo dia 25 de julho completaria 96 anos. Não existe militante de Igreja da minha geração que não o conheça. Por quê? Porque, no Brasil, tivemos dois teólogos que rodaram o país de ponta a ponta divulgando o Concílio do Vaticano II: Frei Romeu Dale e Mons. Roberto Mascarenhas Roxo, este último por sinal, infelizmente, em precário estado de saúde. Ambos foram peritos do Concílio e, excetuando-se os Srs. Bispos (Padres Conciliares), os seus maiores transmissores. A Igreja do Brasil deve sobretudo a eles esse serviço que sem dúvida conduziu o nosso jovem Catolicismo a maior amadurecimento teológico e pastoral.
Frei Romeu, carioca de Vila Isabel, começou a vida como estudante em escola técnica de agricultura (Viçosa), depois passou à Faculdade de Direito. Na vida universitária conheceu a influência benfazeja dos expoentes do clero e laicato católicos do Rio de Janeiro: Cardeais Arcoverde e Leme, Carlos de Laet, Leonel Franca e a PUC-RJ, Jackson de Figueiredo, Gustavo Corção, Sobral Pinto, Alceu Amoroso Lima etc. Os universitários cariocas da década de 20 foram profundamente marcados pela teologia e liturgia dos Monges Beneditinos e dos Frades Dominicanos. Tanto que muitos acabaram entrando para esses institutos religiosos.
Frei Romeu fez os estudos de Teologia em Saint-Maximin e no Instituto Católico de Toulouse, concluindo o doutoramento na Universidade Santo Tomás de Aquino (Angelicum), em Roma. Retornando ao Brasil, radicou-se no Rio de Janeiro, dedicando-se por muitos anos ao Movimento Economia e Humanismo do Pe. Lebret e à Ação Católica, especialmente a JUC (Juventude Universitária Católica). Concomitantemente, interessou-se pelo ecumenismo e pelos meios de comunicação social; desenvolveu intensa colaboração seja com a Editora Vozes (Petrópolis), seja com a CNBB, da qual foi sub-secretário, estreitamente ligado às lideranças de Dom Helder Câmara e Dom Aloísio Lorscheider. Costumava passar alguns meses cada ano lecionando na Escola Dominicana de Teologia em São Paulo. Nada, porém, o impedia de dedicar-se intensamente ao apostolado na Favela Chapéu Mangueira-Babilônia, no bairro do Leme.
Convocado o Concílio, foi nomeado perito pelo Papa João XXIII. Durante todas as quatro sessões foi intenso colaborador do Episcopado brasileiro, reunido na Domus Mariae, para cujo recinto ele fazia chegar os mais importantes teólogos e pastoralistas da Igreja para dar palestras e dialogar com os nossos Bispos.
Na início da década de 1970, frei Romeu foi eleito Provincial dos Dominicanos e passou a residir em São Paulo. Terminado o seu mandato, fundou o Centro Pastoral Cristo Operário, obra na qual persistiu trabalhando até começar a debilitar-se fisicamente. Recolhido ao convento de Belo Horizonte, viveu os últimos anos numa intensa e edificante vida fraterna e de oração.
Intelectual finíssimo, religioso exemplar, renomado teólogo tomista, frei Romeu contagiava a todos com seu humor britânico, a vasta experiência, a conversa inteligente e serena; infatigável nas inúmeras viagens, sempre pelos meios mais simples, testemunhou junto a quantos o conheceram admirável, constante e fervoroso amor a Jesus Cristo, à Virgem Maria, a São Domingos, ao povo e à Igreja, que são as mais genuínas e imprescindíveis características dos Frades Pregadores. Deve estar no Céu explicando o Vaticano II para os Anjos e os Santos.
Domingos Zamagna é jornalista e professor de Filosofia.