CPV - Centro de Documentação e Pesquisa Vergueiro
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Antes de tudo, carioca da Vila Isabel

Publicado em 17 de Julho de 2007 às 15:48

O CPV foi brindado com a experiência do velho companheiro – sim, para nós, um companheiro: de luta, de confraternização e solidariedade – e frade dominicano, numa fase em que a entidade crescia no ritmo e na importância da conjuntura nacional. Num momento em que os movimentos sociais se reerguiam nas comunidades, nos bairros, no movimento rural, nas categorias profissionais e se reorganizavam em oposições sindicais para tomar os sindicatos das mãos da ditadura e dos pelegos.

Religioso experiente, intelectual generoso, jornalista, exemplo prático da fusão da fé com a política, frei Romeu sabia conciliar e fazer com que a pluralidade do CPV não paralisasse nossas ações.

Frei Romeu Dale aos 94 anos, em visita a São Paulo. Foto de agosto de 2004
Frei Romeu Dale aos 94 anos, em visita a São Paulo (Agosto de 2004)

Depois de passar por importantes tarefas na Igreja Católica, veio para o CPV fazer aquilo que ele dizia ser seu talento – cuidar de documentação. Assim chegou frei Romeu na comunidade dos dominicanos, lá na Rua Vergueiro, 7290, no Ipiranga, primeira sede do CPV.

Romeu, como alguns o tratava, chegou ao CPV no início da década de 1970 a convite de frei Giorgio Callegari, um dos fundadores do CPV. Com o afastamento deste, assumiu a presidência. Ainda ecoa em nossos ouvidos a "advertência" de Giorgio, preparando a vinda de frei Romeu: "Não me falem palavrão na frente dele. Ele não é como nós". Com isso, Giorgio queria alertar para o respeito que todos tinham pela experiência daquele frade dominicano. Mas ele era igual a gente, sim, todos vimos isso no primeiro instante.

Com frei Romeu, o CPV coordenou uma ação nacional entre entidades na capacitação e formação de centros de documentação popular. Foram vários encontros de centros que existem até hoje pelo Brasil afora.

O experiente dominicano tinha uma atenção especial com a linguagem a ser utilizada na comunicação com os trabalhadores. O boletim mensal Hora Extra é testemunha dessa preocupação. O Hora Extra foi ferramenta de comunicação nas reuniões com os trabalhadores nas fábricas do Ipiranga, e acabou sendo distribuído para muitas comunidades em diversas regiões do País.

Sexagenário, bem-humorado, paciente, grande contador de histórias, orgulhoso de ser carioca da gema e da Vila Isabel, conterrâneo de Noel Rosa, de quem sabia os sambas, e arriscava alegres interpretações. Se tinha uma roda de pessoas cantando, com ou sem violão, lá estava ele para garantir o repertório de Noel.

Frei Romeu era uma excelente companhia, afável, sempre disposto a ouvir e dar a sua opinião. Por diversas vezes, em momentos de lazer, apesar de sua idade, participava das brincadeiras, mostrava suas habilidades no jogo de vôlei, disputando a bola na rede com os jovens.

Foi secretário da Juventude Universitária Católica (JUC), por onde passaram estudantes cristãos que mais tarde, muitos deles, lutaram contra a ditadura militar, compondo a esquerda guerrilheira ou não. É autor de vários obras sobre comunicação cristã e coordenou o grande dossiê chamado As Relações Igreja-Estado no Brasil, editado pela equipe do CPV e Editora Loyla.

Com frei Clarêncio Neotti, professor José Marques de Melo, Marcelo Casado D’Azevedo, padre Tarcísio Santiago, entre outros, frei Romeu ajudou a fundar a União Cristã Brasileira de Comunicação Social (UCBC), em 1969.

O Romeu de Vila Isabel nos deixou. Nem choro nem vela, diz Noel, pois morre o homem e fica a fama, diz outro sambista – Ataulfo. E o velho frade deixou a sua boa obra.

Silêncio.

Diretoria e amigos de frei Romeu, junho de 2007.

Artigo

A trajetória de frei Romeu Jorge Dale como religioso está muito bem exposta no artigo – o qual tomamos a liberdade de reproduzir –, do jornalista e professor Domingos Zamagna, da Escola Dominicana de Teologia, sediada na comunidade dos dominicanos, à Rua Vergueiro, em São Paulo – no mesmo local onde o CPV esteve por 20 anos.

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